Antes, quarentena gerava estresse; agora, volta à normalidade causa medo

“Eu tenho medo de que chegue a hora/ em que eu precise entrar no avião/ eu tenho medo de abrir a porta/ que dá pro sertão da minha solidão”. Os versos de “Pequeno Mapa do Tempo”, composição do músico cearense Belchior, morto em 2017, ganham novo significado à luz da experiência coletiva que a pandemia da Covid-19 impôs ao mundo. Se, em um primeiro momento, havia desconfiança sobre a gravidade daquela doença, e a adaptação a uma nova realidade causou estresse, hoje, para aqueles que compreenderam a dimensão do fenômeno, o motivo de apreensão é justamente a volta àquela antiga normalidade.

Sem uma vacina que funcione como uma solução definitiva contra o coronavírus, profissionais de diversas áreas, que tiveram o privilégio de serem postos em modalidade de trabalho remoto, temem o aumento das chances de contágio ao retomarem uma rotina de espaços compartilhados, de convivência presencial com colegas e de uso de transporte coletivo. É uma dinâmica de insegurança que tem feito parcela da população deixar de frequentar espaços como bares e restaurantes, mesmo diante da autorização de órgãos municipais, estaduais e federais – motivo pelo qual parte do empresariado tem externado crer que uma reabertura prematura pode significar a morte de seus negócios.

E se no Brasil a excitação com o retorno das atividades começa a se fazer mais presente, em países que superaram o período mais crítico e que estão em fase de reabertura, como a Itália, já é possível identificar como esse “novo normal”, mais protocolar e cercado de cuidados de higiene, se incorpora ao dia a dia.

Em alguns países europeus, por exemplo, tornou-se praxe perguntar, ao encontrar algum conhecido, como a pessoa prefere ser cumprimentada: se apenas com acenos, se com toques com os pés ou com os cotovelos ou mesmo se com um caloroso abraço. Esta foi, certamente, a mais simbólica mudança de comportamento percebida pela mineira Denise Gontijo, de 32 anos, que vive em Milão desde 2007 – cidade que chegou a ser referência negativa na lida com a doença quando, primeiro, abraçou a campanha contra medidas restritivas proposta pelo prefeito Giuseppe Sala, que, depois, precisou ser revista em razão de seus resultados desastrosos.

“No início, as pessoas aqui também falavam que era exagero, que não precisava disso tudo. Depois, a coisa mudou, e começaram a falar que era muito cedo para voltar, todos com medo, receosos”, expõe Denise, detalhando que, desde a segunda quinzena de maio, o lugar vem em um processo criterioso de reabertura, sendo que, pelo menos até dia 15 de julho, o uso de máscaras segue obrigatório. “Mesmo nesse processo de reabertura, muitos não voltaram a trabalhar presencialmente e seguiram em home office, indo ao escritório apenas uma vez por semana, por exemplo”, pontua, citando que novas medidas foram adotadas, como preocupação em relação ao distanciamento social, medição de temperatura e sanificação.

Nos bares em que Denise trabalha, medidas como o controle de acesso e de disponibilização de álcool em gel se tornaram comuns. “Virou um novo mundo”, resume. Algo que se estende para dentro dos lares. “As pessoas aprenderam a viver diferente, lavando muito as mãos, lavando alimentos. Noto que esses hábitos, que primeiro foram impostos, agora estão incorporados”, avalia.

Um abraço mais desconfiado

Para a psicóloga e sexóloga Enylda Motta, a pandemia, de fato, já promoveu mudanças nos códigos sociais e interferiu na forma como se dão as relações interpessoais. Enquanto a crise mais aguda provocada pela doença é atravessada, “estamos tendo que aprender a lidar uns com os outros de outra forma, substituindo o toque por palavras, mensagens, videochamadas”, aponta.

Em um segundo momento, a psicóloga acredita que o toque será mais tímido e cuidadoso. “Dependendo de como cada pessoa lidou com a quarentena, é possível que muitas dessas mudanças colocadas atualmente permaneçam”, acredita. “Isso tudo vai passar? Sim, vai. Mas, mesmo depois, o abraço ainda será receoso, com desconfiança”, examina.

Por outro lado, lembrando a gripe de 1918, a historiadora Anny Torres aponta que certos padrões tendem a ser mantidos por uma série de razões. “Uma das recomendações, em 1918, é que a gente devia evitar os cumprimentos com mão estendida, que aqueles eram hábitos grosseiros, que o ideal seria apenas um aceno”, sinaliza. Mais de cem anos depois, “voltamos a falar em repensar essa prática”. “O problema é que não vamos repensar hábitos só pela questão da higiene. Há outros elementos – sociais, históricos, culturais e até religiosos – que explicam por que alguns comportamentos vão, sim, se manter”, elabora.

Já o psiquiatra Luiz Gustavo Vale Zoldan, da equipe de saúde populacional do Hospital Israelita Albert Einstein, lembra que a capacidade de resiliência, tão necessária no início da pandemia, volta a ser importante para o pós-quarentena. “Tudo está diretamente ligado à capacidade de enfrentar a realidade, criatividade para se reinventar e a busca por significados e propósitos de vida. Se o indivíduo não tem esses três componentes, dificilmente sairá psicologicamente saudável de tudo isso”, avalia ele em publicação da Agência Einstein, ligada à instituição. 

Ambiente de trabalho deve se adaptar

É diante desse cenário que, também no Brasil, empresas têm reforçado a adoção de protocolos de segurança e tentado comunicar aos funcionários uma sensação de maior segurança. Superintendente de gestão de pessoas da Rede Mater Dei, Marcelo Jorge Sonneborn diz ter notado a adoção de uma série de hábitos na vida cotidiana de pessoas com quem convive. Uma mudança que aumenta a pressão para que os empreendimentos também busquem se readequar à nova realidade.

“Reconfigurar estruturas físicas, horários de trabalho, redimensionar as equipes e trazer para o ambiente corporativo orientações de higiene e saúde são medidas básicas”, analisa ele, pontuando ser importante o cuidado com o distanciamento de pelo menos dois metros, o que exige um redesenho de reuniões e alterações nas dinâmicas de sociabilidade, como nos intervalos para o cafezinho – “momentos de integração e descompressão que terão que mudar”.

Sonneborn alerta que as empresas devem se preocupar em levar informações confiáveis para seus funcionários, demonstrando a melhor maneira de se preservarem ao usar o transporte coletivo ou outros espaços em que há grande circulação de pessoas. Ele lembra, ainda, que a sensação de segurança é essencial para que os trabalhadores se mantenham produtivos.

O superintendente de gestão de pessoas, que integra um programa de consultoria do Mater Dei e que tem atuado junto a outras empresas, aponta que tem havido uma grande adesão de empresas mineiras ao home office. “É uma estratégia interessante e importante, que minimiza os riscos de contágio em deslocamento”, diz.

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